Andrée Ridder Vieira

alt text Andrée de Ridder Vieira, integrante do comitê gestor da Rede Social São Paulo é bióloga e especialista em gestão em educação ambiental. Há vinte anos atua como consultora na área de responsabilidade social e ambiental. Dirige, há treze anos, o Instituto Super ECO que desenvolve programas e projetos de conservação ambiental e de desenvolvimento humano.

Rede Social São Paulo – Que fatores contribuíram para a formação de um grupo com representantes da Fundação Itaú Social, Instituto Supereco, Fundação Nestlé, Instituto Camargo Correa, ABN Amro Real, Instituto Votorantim, Instituto Unibanco, Fundação telefônica e a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, entre outros, em torno de uma iniciativa que hoje se ampliou e hoje é conhecida como a Rede Social São Paulo?

Andrée Vieira – Um fator significativo para a formação deste grupo, e da própria Rede, foi o grande movimento que surgiu no interior de cada pessoa e dentro das suas instituições. Assim, surgiu uma equipe que queria pensar a questão do desenvolvimento social, não só no ponto de vista assistencial, mas do desenvolvimento das pessoas e grupos atendidos. Não só no caso da criança e do adolescente, para os quais temos o Projeto Envolver, mas também para os tantos outros grupos com que a rede pretende trabalhar. Na verdade, o primeiro convite partiu do governo do estado, na época do Alckmin. A idéia sempre foi mobilizar o empresariado, assim como outros segmentos. Para levar o projeto adiante, atitude pessoal é fundamental. Geralmente, as pessoas têm problemas de agenda e, como profissionais, são até concorrentes. Mas, na Rede Social São Paulo, todos são parceiros. Todos enfrentam os mesmos desafios e, juntos, potencializam seus esforços, criam cultura, dão exemplos, se identificam em uma causa comum e navegam neste barco. Juntos.

Rede Social São Paulo – Como a Rede Social São Paulo está aberta para outras instituições?

Andrée Vieira – A Rede Social é uma rede aberta porque é um movimento. A Rede não tem dono, ela não é de ninguém. É de todos e para todos. Quanto mais parceiros, maior será seu potencial. Por outro lado, uma rede com tantos parceiros, tantas pessoas e instituições envolvidas, tem que ter certo ordenamento das ações para que os esforços não sejam desperdiçados. Para isso, surgiu a iniciativa de se criar um comitê gestor formado por representantes das instituições, que se reúnem periodicamente para planejar e acompanhar os projetos.

Rede Social São Paulo – Qual a importância de se ter, na formação desse grupo, representantes dos três setores da sociedade - governo, empresas e organizações sociais - atuando em rede?

Andrée Vieira – Cada segmento que compõe essa Rede tem uma experiência diferente, o que proporciona a soma de conhecimentos, é vivência prática. São acertos e erros. Então, quando essas pessoas se reúnem, se encontram na rede, trazem todo esse potencial, que tem um valor muito grande. E, quando alguém se manifesta e diz: “a experiência que eu tenho é essa, o caminho poderia ser este”, todos escutam. A escuta sensível na rede é muito importante. Este é um dos pontos que eu considero mais ricos desta rede. Refiro-me ao grau de experiência de pessoas que estão lá, representando suas instituições, com os projetos que elas financiam, executam ou acompanham. A outra vantagem é a agilidade. Quando se trata do sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente, o tempo é precioso.

Rede Social São Paulo – Com tantos desafios para serem enfrentados na área social, o que levou o comitê gestor da Rede Social São Paulo a eleger a defesa dos direitos da criança e do adolescente como causa prioritária?

Andrée Vieira – Esse público, - criança e adolescente -, não quer assistencialismo, quer uma oportunidade de vida. Então estamos falando em oferecer condições para que essa criança e esse adolescente possam, de fato, ser inseridos na sociedade. Nós só podemos pensar em mudanças, em desenvolvimento social e no desenvolvimento do país se conseguirmos fazer com que essas crianças e adolescentes sejam protagonistas das suas próprias histórias. O que lhes falta é a visão de como fazer isso. Falta oportunidade e alguém que realmente se importe e faça algo por eles, que cuide deles. Acho que essa relação de cuidado é importante, pois você só cuida daquilo que você conhece e ama.

Rede Social São Paulo – Como o comitê acompanha as ações e resultados do Projeto Envolver, que trabalha no aprimoramento do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente?

Andrée Vieira – Em termos de resultados, o comitê se reúne, periodicamente, para analisar tanto relatórios quanto prestações de contas. E, à medida que os planos de ação vão sendo colocados em prática, conseguem-se os indicadores de resultados. Em várias regiões já podemos perceber mudanças em termos de agilidade e de articulação. Isso porque a metodologia do projeto trabalha com casos fictícios baseados em casos reais. Existe um grande fator de mobilização local, principalmente a promoção de encontros entre segmentos e pessoas envolvidas na causa da criança e do adolescente e que jamais conversaram ou sequer sabiam da existência do outro. Geralmente, não conhecem os projetos que o outro desenvolve, e nem mesmo que instituições representam. Muitas vezes, a solução está bem ao nosso lado, mas não conhecemos nosso vizinho. É importante entender que um simples telefonema, um e-mail ou uma visita pode mudar a vida de uma criança. E para melhor. O comitê gestor tem interesse de estar presente nas jornadas. E isso acontece sempre que possível. Recentemente, em uma cidade do Vale do Paraíba, tive a oportunidade de conhecer uma professora que participou de uma das jornadas e que percebeu o potencial de algumas instituições atuantes na cidade e o quanto tudo aquilo poderia colaborar para o trabalho dela. Embora essa professora tivesse relatado toda essa experiência e esse potencial da rede, para a administração pública da cidade, ela não obteve permissão para comparecer no outro encontro. Então, ela usou o abono médico a que tinha direito para poder estar lá e participar. Isso para mim tem um valor incalculável. É um exemplo extraordinário. Certamente, quando voltou para o seu espaço de trabalho, ela buscou transformar, fazer algo diferente e melhor. E agora, para enfrentar os desafios que surgirem, ela poderá contar com o apoio de outras pessoas dos núcleos de mobilização, articulação e comunicação. É assim que as coisas começam a funcionar, mas isso requer tempo.

Rede Social São Paulo – Muitas vezes, a palavra marketing é mal usada ou mal interpretada. Qual é o limite que define se uma empresa está usando correta, legítima e eticamente o chamado marketing social?

Andrée Vieira – Essa é uma pergunta essencial porque há um crescimento dos segmentos da responsabilidade social, da responsabilidade ambiental e da ética. Vejo todas essas novidades como uma questão mercadológica mesmo. Hoje, para que as empresas estejam vigentes no mercado e ocupem determinados espaços, elas têm que ter no seu planejamento, na sua estrutura de gestão, a questão social, a questão ambiental, a questão da sustentabilidade bem visível. A empresa enxerga que isso facilita o desenvolvimento de seu negócio e, para isso, se prepara de verdade e procura obter suas certificações. Por outro lado, também existe uma coisa mais de fachada. Isso ocorre quando algumas empresas investem muito em projetos externos e dentro da própria casa não fazem nada. Elas não têm, por exemplo, um departamento de marketing qualificado para falar de responsabilidade social, ou não têm no departamento de comunicação, alguém qualificado para lidar com esse assunto. O tema é muito sério.

Rede Social São Paulo – É sabido que, principalmente nas grandes empresas, existem funcionários que dedicam parte do seu tempo livre para trabalhar como voluntários junto a entidades filantrópicas e que, em todo o Brasil, há milhares de associações que ajudam crianças, deficientes, idosos, entre outros. Assim, concluímos que o brasileiro é um povo que tem uma vocação solidária. O que falta para que os esforços deixem de funcionar isoladamente e passem a trabalhar em conjunto, multiplicando suas forças?

Andrée Vieira – De fato, o Brasil tem uma vocação pela solidariedade. Sempre se une em torno de uma causa ou no socorro de uma catástrofe. Nossa afetividade é uma característica que todo estrangeiro percebe rapidamente. Por isso, acredito que trabalhar o fortalecimento do sistema de garantia de direito da criança e adolescente, dentro do Projeto Envolver pela afetividade, vai fazer a grande diferença deste programa. Mas teremos que mudar a cultura do orgulho, do “eu sou o dono da idéia”. Acredito que isso é fundamental para que todo o movimento continue e se perpetue. Outra coisa a ser considerada é que não se deve duplicar as ações. Este erro, que ainda se comete, fragiliza as forças. Somar é diferente de juntar partes. Somar é unir projetos e idéias. Se a estrutura que você tem é aquilo que eu não tenho e preciso, vamos fundir isso e pensar uma estrutura que seja potencializada. Para que isso aconteça de fato, trabalhar em rede é muito importante. A partir do momento em que temos boas experiências, boas práticas, o passo seguinte é divulgá-las. Quando vemos algo dando certo, no mínimo ficamos curiosos para saber porque deu certo.

Rede Social São Paulo – Finalmente a humanidade levou um grande susto ao se dar conta da fragilidade do planeta ao constatar que já estamos vivendo catástrofes em decorrência das mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global, resultado de negligências do homem no trato da natureza. Que tipo de “tsunami” seria preciso ocorrer para que este mesmo ser humano se conscientize, de uma vez por todas, das reais necessidades de se desenvolver as áreas sociais?

Andrée Vieira – Essa pergunta é bem interessante em relação a tudo o que eu acredito como meios de mudanças. Atuo na área ambiental e, durante muito tempo, esse segmento precisou trabalhar, na mídia, em cima de catástrofes para se fazer notar. Os meios de comunicação sempre veicularam a catástrofe ambiental como a forma de chamar a atenção das pessoas. Mas no âmbito social, acredito nas mudanças quando se trabalha o interior de cada pessoa, pela afetividade, por aquilo que ela vê de bonito. Na minha opinião, o grande “tsunami” para esse país, virá com um grande boom de coisas positivas se realizando. Muita coisa vai mudar na medida em que conseguirmos mostrar tudo o que já mudou e tudo que está se transformado para melhor.

Participaram da entrevista Regina Vilela, José Francisco “chicão” Teixeira, Cláudio Carvalho e Renan L. Reis.

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Postado 1 ano atrás por Ana Luiza | Permalink | 0 comentários