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Investimento Social Privado

alt text O secretário geral do GIFE - Grupo de Institutos, Fundações e Empresas-, Fernando Rossetti formou-se em ciências sociais e trabalhou por dez anos como repórter da Folha de S.Paulo, cobrindo a área social. Foi diretor executivo e consultor da Associação Cidade Escola Aprendiz, por sete anos, e está há três no GIFE. Nesta entrevista, Rossetti fala de investimento social privado e do trabalho da organização.

Rede Social São Paulo – Quando e por que surgiu o GIFE?

Rossetti - O GIFE surgiu em maio de 1995, num momento em que o Brasil passava por um “boom” do Terceiro Setor. Representou um crescimento muito significativo, até porque as corporações passaram a investir mais na área. Foi a primeira associação da América do Sul a reunir empresas, institutos e fundações de origem privada.

Para entender essa área de investimento social privado, de filantropia, é interessante voltarmos no tempo. Antes da década de 30, a maneira tradicional era assim: as pessoas ricas davam dinheiro para a Igreja e ela fazia o trabalho social, enquanto o Estado cuidava das coisas de Estado. Só no governo de Getúlio Vargas é que questões como educação e saúde se tornaram prioridades. Nos países do hemisfério norte, os temas sociais sempre foram fortemente assumidos pelo Estado. Já no hemisfério sul, receberam pouca atenção ou ficaram nas mãos das igrejas - no caso latino americano, da Igreja Católica.

Rede Social São Paulo - Qual foi a grande diferença do GIFE?

Rosseti - Foi a introdução de uma visão mais estratégica. Na verdade, as pessoas que davam dinheiro antes continuaram dando depois. E, hoje, numa proporção maior por uma mudança conjuntural global. Mas a grande diferença é uma visão de profissionalização do setor, uma visão de resultados, uma visão estratégica de sair do assistencialismo e ir para o campo da transformação social, da cidadania. É parar de lidar com sintomas sociais e passar a lidar com as causas dos problemas sociais.

Rede Social São Paulo - O GIFE é a primeira associação da América do Sul a reunir empresas, institutos, etc. Quantas associações semelhantes existem hoje na América Latina?

Rosseti- Em janeiro deste ano, assumi a presidência do conselho da rede mundial de organizações, que são organizações, como o GIFE, de apoio a fundações que fazem investimento social. A rede mundial de GIFEs tem, aproximadamente, 140 associados e grande parte deles são dos Estados Unidos. Na América Latina, o Brasil é um dos países mais desenvolvidos nesta área. Os outros dois, no campo de organização da sociedade civil, são o México e a Colômbia.

O Brasil conta com organizações como o GIFE, a ABONG – Associação Brasileiras de Organizações não Governamentais --, os centros de voluntariados, o Instituto Ethos, entre outras, consideradas como a infra-estrutura da sociedade civil. Suas atividades são desenvolvidas para ajudar outras ONGs a obterem mais resultados. O México é muito desenvolvido, mas conta com uma única organização, o Centro Mexicano para a Filantropia – CEMEFI, responsável por todos esses afazeres. Diversidade é sempre riqueza, então considero que hoje, na América Latina, o Brasil é o mais desenvolvido. E, ter um cargo no conselho é representativo para o País. Sou o terceiro presidente do conselho mundial e a pessoa que me antecedeu era representante do Canadá. A anterior era dos Estados Unidos.

Rede Social São Paulo - Em relação ao GIFE, qual a importância do trabalho em rede?

Rosseti - Hoje, se olharmos para o campo dos negócios, a formação de redes em certas produções ou atividades está acontecendo tanto quanto no campo social. É uma das maneiras mais modernas de organizar a sociedade. É a forma de aproveitar as diferentes competências, dos diferentes agentes. Com pesos e responsabilidades diferentes, dependendo da atividade que se vai desenvolver, sem necessidade de uma liderança central.

Normalmente há uma liderança que organiza, mas de acordo com a atividade, surge uma liderança mais capacitada para fazer aquilo. O Estado tem uma determinada competência e a ONG “X” tem uma outra para validar o processo. É isso que fazemos no GIFE. Temos as melhores fundações no campo da inclusão digital, da metodologia de ensino e aceleração de aprendizagem, e na área da criança e do adolescente. Assim, diferentes organizações assumem a liderança em processos diferentes. Terá lugar no Conselho Nacional de Juventude a organização que é unanimidade na área da juventude.

Rede Social São Paulo – A rede de associados do GIFE investe mais de um bilhão de reais por ano em projetos variados. Qual a colaboração do Primeiro Setor nessas mesmas áreas?

Rosseti - A posição do GIFE é de não substituir o papel do Estado. Não fazer aquilo que o governo federal deixa de fazer, e sim ajuda-lo a melhorar e complementar o que lhe compete. Dessa foram, podemos doar o dinheiro, ou capacitar uma ONG para que ela controle o orçamento de seu município. Mas não podemos assumir o papel do Estado, senão, a sociedade não se desenvolve.

A Rede Social São Paulo é um exemplo muito feliz disso. Pois o Estado está cumprindo o seu papel de articulador de rede, para construção de políticas públicas. Mas a política pública não é estatal, é uma política pública “pública”, de todos e que envolve a todos.

Hoje, existe um grande problema. Há falta de transparência, não por parte das ONGs, mas do Estado em relação ao quanto ele dá para as ONGs. Não que elas sejam o problema. É que tem gente do Estado montando ONGs e recebendo dinheiro dele. O mesmo acontece com as agências de publicidade. Tem gente no Estado usando agências de publicidade para tirar dinheiro para campanha. Então, não sabemos quanto dinheiro o Estado coloca nessas coisas.

Uma frase importante é que “um bilhão é muito dinheiro”. Mas um bilhão espalhado em um monte de projetos pode ser pouco dinheiro. Um bilhão alinhado pode ter um grande impacto. Por isso o GIFE trabalha no alinhamento de seus associados. Num país como o Brasil, um bilhão ainda é uma gota no oceano, porque numa política de educação, por exemplo, são várias dezenas de bilhões que se gasta por ano. O Brasil, pelo seu tamanho, tem um orçamento muito grande.

Rede Social São Paulo – Qual o momento ou qual a situação mais comum, que leva uma empresa do setor privado a entender que, além de contribuir com impostos, é preciso contribuir com ações filantrópicas?

Rosseti- Existem três fatores principais. O primeiro é que está cada vez mais difícil viver no Brasil. A empresa é feita de gente que vivencia a situação brasileira, as pessoas sentem necessidade de contribuir para melhorar. Cada vez que um menino de rua bate na janela do carro, ou a pessoa gela completamente ou sente-se incomodada e tem uma motivação de ordem pessoal. Isso acontece mesmo por parte das pessoas que têm dinheiro, as que não esqueceram que existe o outro lado.

O segundo fator, e que atrai dinheiro para as empresas, são incentivos fiscais, que ajudam a angariar fundos para a infância e adolescência, por exemplo. É uma opção para as empresas, ao invés de dar dinheiro para o Estado, ter a possibilidade de canalizar esse dinheiro para uma determinada causa e isso é favorável. O terceiro tem a ver com globalização. O mercado hoje é hiper competitivo em vários setores. Com a globalização, a pessoa não compete somente ali na sua cidadezinha, está competindo com chinês, com russo até quando escolhe um telefone celular.

Hoje, na escolha de um aparelho ou de uma operadora, a qualidade do serviço oferecido é tão parecida que você acaba avaliando valores intangíveis, como a responsabilidade social, a contribuição e a identidade social da empresa. Constrói-se no consumidor a imagem do produto, e esse se tornou o diferencial para as empresas. Tanto que assistimos nos EUA um “boom” de filantropia corporativa, porque as corporações estão tendo que virar gente.

Rede Social São Paulo – Bill Gates e Warren Buffetf, as maiores fortunas do planeta resolvem dedicar parte significativa do seu tempo, talento e dinheiro para a filantropia. Qual a visão do GIFE em relação a essa atitude?

Rosseti - Em primeiro lugar, isso faz parte da cultura norte-americana. Eles têm essa cultura dentro das corporações, porque isso é familiar. Em segundo, a estrutura de impostos dos EUA também favorece muito o trabalho a partir de fundações familiares. No Brasil, para você passar o seu dinheiro para a geração seguinte, você paga uns 3% de imposto, enquanto lá paga-se 30, 40% de imposto ou não paga nada se o fizer através de uma fundação. Ou seja, é um jeito de continuar com o seu dinheiro, de forma legal, sem pagar imposto. Sem descartar o fato de que, com a globalização, existem pessoas que ficam muito ricas em muito pouco tempo. E são pessoas jovens. Ainda há a questão de querer ajudar o mundo, atento ao que está acontecendo em todos os lugares.

São novos arranjos de investimento social, de filantropia, que estão surgindo. A Fundação Bill and Melinda Gates, a maior do mundo, é um bom exemplo dessa nova maneira que as pessoas encontraram de organizar suas doações. Bill Gates não dá um tostão sem que tenha indicador de resultado no tostão que ele está dando. Com isso ele transformou a lógica assistencialista. A tradição filantrópica americana é até substitutiva ao Estado. Bill Gates está mudando tudo com a fundação. Ele põe dinheiro na África só que ele quer saber o que aconteceu com cada centavo.

Rede Social São Paulo- Nos festivais de campanhas publicitárias realizadas no mundo inteiro, há uma categoria que ganha muitos prêmios. Como o GIFE vê isso? Essas campanhas funcionam, trazem resultados práticos, solucionam problemas pontuais?

Rosseti - Primeiro, é preciso entender que comunicação é diferente de mobilização. Às vezes tenho a impressão de que há uma confusão sobre o que se está comunicando e o que se está obtendo como resultado social. Acho que há a expectativa errada de que em qualquer comunicação consegue-se uma mudança na sociedade, mudança de comportamento. Mas nem sempre se consegue isso na área social. Talvez com publicidade, mudanças de comportamento do consumidor, mas na área social não é tão fácil assim mudar comportamentos. Então, tem todo um componente de mobilização necessário.

A segunda questão é essa que eu estava falando da hiper-competitividade num mercado no qual todo mundo tem de se diferenciar. As empresas estão tendo que adquirir uma feição mais humana, social e ambientalmente responsável, e as agências de publicidade estão inseridas no olho do furacão. Por tudo isso elas estão formulando o seu discurso, prestando o seu serviço, e colocando a sua competência de comunicação dentro das campanhas. Eu vejo isso com valor. Mas deve-se tomar o cuidado de que, na verdade, publicidade e marketing em cima de ação social é exatamente publicidade e marketing em cima de produto. Se você faz comunicação em cima de uma coisa sem qualidade e conteúdo, no começo as pessoas podem até acreditar, mas a médio e longo prazo é um tiro no pé, alguém percebe e sua imagem fica ruim.

Rede Social São Paulo – Quais os projetos que o GIFE tem apoiado nos últimos anos diretamente dirigidos às crianças e adolescentes?

Rosseti - Trabalhamos a noção de rede com grupos de afinidade. Então temos grupos de afinidades com a juventude, e um dos principais é o grupo de marco legal na área da infância e adolescência. E o que buscamos em conjunto, e que tem tido resultado, é o aprimoramento do marco legal do ambiente legal e das práticas do Estado e a regularização desse setor. Por exemplo, temos atuado fortemente nos últimos dois anos para fazer avançar o PL1300, um projeto de lei que modifica o atual funcionamento dos fundos da infância e da adolescência e busca a inclusão não só das empresas muito ricas. Tem gente muito rica doando para os fundos da infância e adolescência, porque os fundos hoje só podem receber de empresas que declaram lucro real e de pessoas que declaram formulário completo, e isso seleciona cerca de 7% das empresas e 5% das pessoas.

Hoje, os fundos da infância e adolescência, absolutamente importantes, têm um potencial de arrecadação muito maior. Se incluíssemos também as pessoas doando pouco dinheiro, conseguiríamos um controle social maior sobre as políticas desenvolvidas pelos Conselhos dos Direitos da Criança e Adolescente. Todos se interessariam, olhariam tudo mais de perto. Portanto, neste campo específico, eu digo que a nossa atuação, mais nobre e mais forte, é a garantia de direitos estabelecida no ECA - Estatuto da Criança e Adolescente.

Rede Social São Paulo – Como seria possível, no futuro, que a rede de associados do GIFE pudesse repassar recursos privados para projetos sociais às pequenas entidades que lutam com enormes dificuldades?

Rosseti - Noventa por cento dos nossos associados são corporativos, 10% são ou familiares ou independentes. De modo geral, o dinheiro para pequenas ONGs, não só no Brasil mas na América Latina e na maior parte do hemisfério sul, sai de fundações familiares independentes e não tanto das corporativas. A imagem da empresa fica sempre relacionada à ONG. Assim, para as corporações, é muito complexo lidar com pequenas entidades. Grandes empresas tendem a trabalhar com ONGs mais estruturadas.

Estamos trabalhando para desenvolver novas modalidades, novos tipos de investimento. Inclusive, realizaremos de 02 a 04 de abril, em Salvador (BA), o 5º Congresso GIFE sobre Investimento Social Privado e teremos uma mesa específica para discutir esse assunto. Contaremos com a participação de fundações comunitárias, que têm o desenho das associações comerciais, no qual várias organizações se cotizam para financiar um projeto conjunto e que muitas vezes se utilizam de pequenas ONGs para o seu desenvolvimento. Como por exemplo, a própria ACSP – Associação Comercial de São Paulo, que tem o Movimento DEGRAU.

Outro exemplo é o da Associação Comercial de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, que junta uma verba através da Fundação Semear e que encaminha dinheiro para que pequenas organizações não governamentais façam o seu trabalho. A saída seria o Brasil construir fundações familiares, através das quais, as doações à sociedade seriam feitas. O capitalismo brasileiro ainda é familiar. Quando essas famílias começarem a doar, a partir da família e não só da empresa, há de crescer esses novos arranjos de investimento social privado. Assim, se garantirá o direito da criança e do adolescente na pequena ONG, na comunidade, na favela. Essa é uma grande preocupação que temos.

Rede Social São Paulo - Os cursos promovidos pelo GIFE são de qualidade inquestionável. Como eles são criados, quais são os “inputs” que orientam a estruturação, a busca de informações, como são preparados?

Rosseti - Fazemos um levantamento. Somos uma grande antena que capta o que está acontecendo, quais os tipos de profissionais que estão sendo valorizados, que competências estão sendo necessárias. A partir disso, fazemos desde a pesquisa básica de conteúdos - temos uma participação internacional muito forte - vemos todos os tipos de temas que estão aparecendo, as várias estratégias. Assim, criamos workshops para jornalistas, realizamos o curso introdutório “Ferramentas de Gestão” e o “Curso Avançado de Gestão de Investimento Social Privado”, junto à uma universidade com nível de pós-graduação. A idéia é sempre diversificar o portfólio de produtos, de conhecimento, para atender às demandas do que chamo de “Economia do Terceiro Setor”.

Rede Social São Paulo – Na avaliação do GIFE, a grande imprensa tem dado cobertura às ações do Terceiro Setor, mais em espaço ou mais no sentido de esclarecer e conscientizar a opinião pública, sobre a necessidade da sua participação na construção de uma sociedade, verdadeiramente, sustentável?

Rosseti - Todos estamos aprendendo a organizar a sociedade civil, a construir redes sociais, fazer filantropia de um jeito mais estratégico. A cobertura que os meios de comunicação tem dado reflete a juventude desse setor no Brasil e, ainda, a própria falta de profissionalização dos veículos para cobrir esses assuntos. Algumas mídias fixam profissionais especializados pra cobrir determinados casos com qualidade. Por um lado existe uma evolução natural e, por outro, há um preconceito por parte dos jornalistas em pensar que, se as empresas estão tentando fazer o bem, isso é só marketing. Há esse preconceito na cultura jornalística de que empresa não faz o bem, a não ser para ganhar mais dinheiro. Este, no meu ponto de vista, não é um pensamento correto, mas muitos jornalistas ainda não se deram conta disso. Tem uma transformação mundial em curso: de fato as empresas estão tendo que apresentar uma feição social e uma ação social que as diferencie.

Participaram da entrevista: Regina Vilela, José Francisco “chicão” Teixeira, Simone Kawakami e Renan L. Reis.

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Postado 1 ano atrás por Ana Luiza | Permalink | 0 comentários