Projeto Quixote

A equipe do Projeto Quixote de São Paulo enfrenta “dragões” reais e até mais perigosos do que os do personagem de Cervantes que serviu de inspiração para a equipe. Um exemplo é o crescente consumo de crack, uma droga mais barata, entre a população mais pobre. O objetivo do projeto é construir com crianças e jovens que vivem em situação de risco social, caminhos que possam transformar o cotidiano de suas vidas, cercadas de violência, abandono e abuso de drogas. As armas utilizadas são a arte, a educação e a saúde.

Carolina Bazzo Dinardi, da Coordenação de Parcerias do Projeto Quixote fala sobre o funcionamento do trabalho e também sobre como todos podemos ajudar.

Quando surgiu o Projeto Quixote e qual seu principal objetivo?
Carolina Bazzo Dinardi - A história do Projeto Quixote se inicia em 1996, quando, aliando à preocupação relacionada ao uso de drogas por crianças de rua a uma indignação enquanto cidadãos, um grupo de clínicos da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) se propôs a criar um projeto de atendimento, formação e pesquisa destinado a esta população. O foco foi gradualmente ampliado, incluindo crianças, jovens e famílias em situação de risco. Ainda hoje está ligado à Unifesp.

A principal meta do Projeto Quixote é construir com crianças e jovens em situação de risco social, alternativas eficientes para os desafios cotidianos de suas vidas, como a violência, o abandono, a falta de referências e o abuso de drogas. Para enfrentar todos os dragões desta empreitada, o Quixote apostou na arte, na educação e na saúde como formas de aproximação e vinculação com estas pessoas para atingir seu objetivo:

Carolina Bazzo do Projeto Quixote

Buscar construir alternativas eficientes para os desafios cotidianos de suas vidas, como a violência, o abandono, a falta de referências e o abuso de drogas através de oficinas artísticas e estratégias clínicas e sociais, onde criatividade, afeto e expressão caminham sempre juntos.

Nossa missão: transformar a história de crianças, jovens e família em complexas situações de risco, por meio de atendimento clínico, pedagógico e social integrados, gerando e disseminando conhecimento.

O Projeto Quixote é referência no Terceiro Setor no que se refere às drogas, saúde mental, situação de risco e pequenos moradores de rua. Em 13 anos de atividades, já atendeu cerca de 6 mil pessoas e recebeu prêmios como da Fundação Abrinq, Empreendedor Social pela Folha de São Paulo, Itaú-Unicef, SENAD (Secretaria Anti-Drogas) e Trip Transformadores.

Como é formada a equipe do Projeto Quixote?
Carolina Bazzo Dinardi - Atualmente temos 115 funcionários, entre psicólogos, pedagogos, assistentes sociais, médicos e pessoal administrativo (administradores, engenheiros, publicitários e secretariado).

Quem são os beneficiados pelas ações do Projeto?
Carolina Bazzo Dinardi - A população atendida pelo Quixote é caracterizada por algumas particularidades como: estar em situação de miséria, morar na rua, ter problemas de saúde mental ou de abuso de drogas, já ter vivido uma situação de conflito com a lei ou não estar sob acompanhamento cuidadoso de um adulto. O projeto atende desde crianças e jovens moradores de comunidades de risco, como a favela Mário Cardim na Vila Mariana, até moradores de rua da região da “Cracolândia”, Praça da República e Vale do Anhangabaú, em São Paulo.

O público atendido é composto por 71% de jovens e 29% de crianças. Analisando apenas o perfil dos jovens, 68% são do sexo masculino.
Veja a tabela abaixo, dados de 2007:

Jovens 13 – 15 anos 16 – 18 anos Acima de 18 anos
Masculino 126 177 48
Feminino 60 84 22

Do universo acima, a maioria tem mãe viva (91%), mora com a família (66%), estuda (70%) e já usou drogas (69%). 16% deles chegaram ao Projeto Quixote devido às drogas, sendo que 47% deles haviam feito uso recente de algum tipo de droga. O álcool representa 54% da preferência dos jovens, seguido pelo tabaco (47%) e pela maconha (37%). Não há dados referentes à etnia e orientação sexual, já que o “Quixote” não faz qualquer diferenciação entre os jovens quanto a tais aspectos.

O projeto é voltado para crianças e adolescentes, mas atende também as famílias. Como é feito este trabalho?
Carolina Bazzo Dinardi - O Projeto Quixote atende, há treze anos, crianças e jovens em situação de risco. A participação familiar é fundamental para uma transformação efetiva na vida destas pessoas. Inicialmente, foi formado um Grupo de Mães que utilizava uma oficina de costura como instrumento facilitador para a formação de vínculos, aumento da aderência dos seus filhos ao tratamento (uso de drogas, transtornos mentais e de comportamento) e redução do impacto dos fatores de risco.

No ano de 2000, a oficina se transformou em um projeto de geração de renda, constituindo-se como possibilidade de inserção no mercado de trabalho, para obterem maior autonomia e superarem seus problemas financeiros. Devido às características psicossociais e clínicas do grupo de gerirem uma fonte de renda estável, em 2007 profissionalizou-se a oficina. Atualmente 50 mães são beneficiadas mensalmente através de cinco oficinas semanais, entre geração de renda, atendimento, terapia em grupo e entretenimento. Quando necessário, a mãe é encaminhada ao atendimento psicológico ou psiquiátrico individual.

Quais são as principais atividades desenvolvidas?
Carolina Bazzo Dinardi - O Projeto Quixote atua em duas áreas:

  • Atendimento: com estratégias lúdicas, são construídos vínculos afetivos que possibilitam o surgimento espontâneo de demandas que são respondidas pela equipe multidisciplinar. Através dos programas clínico, pedagógico, família, educação para o trabalho, abordagem de rua e abrigamento, acolhemos crianças, jovens e seus familiares.
  • Ensino e Pesquisa: buscamos estudar a prática para produzir conhecimentos e subsidiar políticas públicas voltadas a crianças, jovens e famílias em situação de risco. Através de cursos, supervisões e consultorias para técnicos e educadores sociais de todo o Brasil buscamos trocar e multiplicar os aprendizados.

Através de programas específicos, oferecemos ações diferenciadas para os diversos públicos e necessidades.

Programa Pedagógico:

  • Oficinas pedagógicas, artísticas e lúdicas como artes plásticas, graffiti, break, reciclagem, dança, teatro, expressão corporal, esportes, lúdica, informática, artesanato, bordado, cidadania, sexualidade, comunicação, vídeo, fotografia e áudio;
  • Acompanhamento escolar.

Programa Clínico:

  • Atendimento em psicologia, psiquiatria, pediatria, psicopedagogia e serviço social; sendo referência em abuso de drogas e saúde mental;
  • Cuidar: Atendimento para vítimas de violência e abuso sexual.

Programa de Educação para o Trabalho:

  • Quixote Jovem – formação em competências básicas para o mundo do trabalho, através de oficinas de cidadania, comunicação e projetos;
  • Agência Quixote Spray Arte – formação e geração de renda através do graffiti;
  • Inserção no mercado de trabalho – formação, inserção e acompanhamento de jovens em empresas, como a PricewaterhouseCoopers.

Programa Atenção à Família:

  • Atendimento psicossocial e geração de renda para familiares dos atendidos, através da produção e venda de produtos artesanais.

Programa Refugiados Urbanos (situação de rua):

  • Moinho da República: abordagem de crianças e jovens da região central de São Paulo (há uma casa base para atendimento na Praça da República);
  • Retorno as suas comunidades de origem.

Você citou o Programa Refugiados Urbanos. Como funciona? É grande a quantidade de crianças reencaminhadas para suas casas?
Carolina Bazzo Dinardi - O programa Refugiados Urbanos busca transformar a história de meninos e meninas de ruas moradoras da região central de São Paulo, como a Cracolândia. Visa assegurar o acesso aos direitos humanos básicos e oferecer oportunidades para uma vida com dignidade, no qual é oferecido atendimento clínico, pedagógico, social, psicológico e psiquiátrico aos atendidos.

Compreende a abordagem nas ruas por meio de atividades lúdicas, durante um período que varia de 1 dia a 6 meses, abrigamento nos abrigos da rede social e o “rematriamento”, que visa o retorno das crianças e jovens s suas comunidades de origem. O trabalho é realizado por 16 ETs (educadores tridimensionais), que fazem a abordagem nas ruas englobando as visões clínica, pedagógica e social, além de uma equipe com assistente social, psicólogo e psiquiatra.

A base do programa é o Moinho da República, localizado na Praça da República, e funciona como retaguarda para a equipe de educadores que realizam a abordagem. No espaço são realizados os contatos com as famílias e comunidades de origem, uma vez que este é o objetivo final do programa, o rematriamento. O espaço serve também como ponto de apoio para a rede social que atende esta população e para realização de cursos, capacitações, discussões de caso e supervisões para educadores da área.

Desde sua implantação, em 2005, já foram realizados 16 mil atendimentos, sendo que, em 2008, foram atendidas em média 330 pessoas por mês, sendo 20% jovens. Desde o início, conseguimos fazer com que 88 crianças e jovens voltassem a morar com suas famílias.

A equipe é formada por:
8 duplas de educadores que atuam na rua
2 psicólogos
2 assistentes sociais
1 coordenadora geral
1 coordenadora assistente
1 auxiliar administrativo
1 serviços gerais

Endereço do Moinho da República:
Praça da Republica, 452 (esquina com Timbiras)
Centro – São Paulo – SP

O que é a Agência Quixote de Spray? Quem participa?
Carolina Bazzo Dinardi - Desde o inicio, em 1996, o Projeto Quixote encontrou no movimento Hip-Hop uma forma de aproximação e vinculação com o público atendido. E também um caminho para enfrentar os desafios cotidianos de suas vidas, como a violência, o abandono, a falta de referências e o abuso de drogas. Para isso, o Projeto Quixote uniu a cultura Hip-Hop à educação para o trabalho, utilizando o graffiti como instrumento de inclusão social, de geração de renda e de cidadania, ao criar a Agência Quixote Spray Arte em 2000.

O jovem inserido na Agência frequenta as Oficinas de Graffiti, no qual aprende a técnica de graffiti, manuseio de spray, desenho de personagens e tags. Após as oficinas, ele passa a vivenciar o aprendizado na prática, por meio do planejamento e execução de graffitis juntamente com os grafiteiros profissionais contratados para desenvolver o serviço de graffiti aos clientes como Casas Bahia, Banco Real, Hotel Grand Hyatt e Casa Cor. Atualmente contamos com 12 jovens aprendizes.

Como o Projeto se sustenta? O que fazer quem quiser ajudar?
Carolina Bazzo Dinardi - O projeto se sustenta através de parcerias com o setor público, privado, além de fundações e institutos. Também buscamos fontes de recursos próprios com as vendas de serviços e produtos e participações em eventos. Quem quiser colaborar com o Quixote, doações em dinheiro, produtos e serviços são sempre necessárias.

Vocês trabalham com voluntários? Como se tornar um voluntário do projeto?
Carolina Bazzo Dinardi - O Quixote desde o seu inicio atua com voluntários em diversas áreas, no qual existe a possibilidade de nos auxiliar nas atividades internas ou “externas”, como as estratégias de gestão, marketing ou tributária. Psicólogos e assistentes sociais podem nos auxiliar na parte clínica e administradores, engenheiros e publicitários na área de gestão, por exemplo. Também contamos com empresas voluntárias, como a atual assessoria de imprensa, agência de publicidade e escritório de advocacia. Os voluntários podem, ainda, participar de ações pontuais, como a reforma da sala de oficina de artes ou a montagem de uma biblioteca. Para se tornar um voluntário do projeto, a pessoa deve se inscrever para o encontro mensal de voluntários, no qual é transmitida a essência do Projeto, as atividades e necessidades. Continuando o interesse, entrar em contato com o coordenador da área escolhida para definir a atuação.

Quixote lembra o personagem ingênuo e sonhador criado pelo escritor Miguel de Cervantes. Qual é o sonho da equipe do projeto?
Carolina Bazzo Dinardi - O nosso sonho é que projetos como os nossos não precisassem existir.

Para mais informações entre em contato pelos telefones: (11) 5572-8433 / 5904-3524 ou acesse o site www.projetoquixote.org.br

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Postado 1 ano atrás por Ana Luiza | Permalink | 0 comentários